Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

sábado, 25 de julho de 2015

Injúria Secreta

Artur Gomes

Suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
Ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
palavra acesa na fogueira
pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema
o que procuro na palavras
é clara quando não é gema

até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz
devassa quando em mim transcende
a lamparina que acende
e transforma em mel o que era pus.

Poetas De Amanhã

Max Moreira Whitman

Poetas de amanhã: arautos, músicos,
cantores de amanhã !
Não é dia de eu me justificar
E dizer ao que vim;
Mas vocês, de uma nova geração,
Atlética, telúrica, nativa,
Maior que qualquer outra conhecida antes
- levantem-se: pois têm de me justificar !

Eu mesmo faço apenas escrever
Uma ou duas palavras
Indicando o futuro;
Faço tocar a roda para frente
Apenas um momento
E volto para a sombra
Correndo

Eu sou um homem que, vagando
A esmo, sem de todo parar,
Casualmente passa a vista por vocês
E logo desvia o rosto,
Deixando assim por conta de vocês
Conceituá-lo e aprová-lo,
A esperar de vocês
As coisas mais importantes.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Se O Amor Quiser Voltar

Vinicius de Moraes

Se o amor quiser voltar
Que terei pra lhe contar
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio
Qualquer olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Detalhes

Roberto Carlos

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver

Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes
Você vai ver

Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isto lhe trouxer saudades minhas
A culpa é sua

O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada ou coisa assim
Imediatamente você vai lembrar de mim

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido!
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim
E nessa hora você vai lembrar de mim

A noite envolvida no silêncio
Do seu quarto
Antes de dormir você procura
O meu retrato
Mas da moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim
E tudo isso vai fazer você lembrar de mim

Se alguém tocar seu corpo como eu
Não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer
À pessoa errada

Pensando ter amor nesse momento
Desesperada você tenta até o fim
E até nesse momento você vai
Lembrar de mim

Eu sei que esses detalhes vão sumir
Na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor
Em quase nada

Mas "quase" também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso, de vez em quando você vai
Vai lembrar de mim

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver
Não, não adianta nem tentar
Me esquecer

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Ângulos

Arrigo Barnabé

Curvas dos sapatos
Espelhando esquinas
Números exatos
Cortam-se na brisa
Sóis luzem nos dentes
Você me diz
Vamos parar
Os ângulos retos
Domam seus cabelos
Automóveis pretos
Refletem sapatos
Lábios quase opacos
Você me diz
Vamos parar
Na sua voz
Passam tantas notas
Que não param pra notar
Dedos na mão
Que dorme à sombra do momento
Contam tempos soltos pelo bar
E o amor
Nuvem nos topos
Não encontra lagos
A curva dos copos
Reflete automóveis
Olhos quase secos
Você me diz
Vamos parar
Lágrima no pelo
Espelhando a nuvem
Álcool sobre o gelo
Nenhuma palavra
Unhas sobre a louça
Você me diz
Vamos parar

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se

Djavan

Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim, deixa vir do coração

Você sabe que eu só penso em você
Você diz que vive pensando em mim
Pode ser, se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não
Mas você adora um se

Eu levo a sério, mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um

Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge, por favor, me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Lua De São Jorge

Caetano Veloso

Lua de São Jorge, lua deslumbrante
Azul verdejante, cauda de pavão
Lua de São Jorge, cheia, branca e inteira
Oh, minha bandeira solta na amplidão
Lua de São Jorge, lua brasileira
Lua do meu coração!

Lua de São Jorge, lua deslumbrante
Azul verdejante, cauda de pavão
Lua de São Jorge, cheia, branca e inteira
Oh, minha bandeira solta na amplidão
Lua de São Jorge, lua brasileira
Lua do meu coração!

Lua de São Jorge, lua maravilha
Mãe, irmã e filha de todo esplendor
Lua de São Jorge, brilha nos altares
Brilha nos lugares onde estou e vou
Lua de São Jorge, brilha sobre os mares
Brilha sobre o meu amor

Lua de São Jorge, lua soberana
Nobre porcelana sobre a seda azul
Lua de São Jorge, lua da alegria
Não se vê um dia claro como tu
Lua de São Jorge, serás minha guia
No Brasil de Norte a Sul

Soneto Do Teu Corpo

Leoni

Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem sai sem rumo prá viagem.
Vou te cruzar sem mapa nem bagagem,
Quero inventar a estrada enquanto avanço.

Beijo teus pés, me perco entre teus dedos.
Luzes ao norte, pernas são estradas
Onde meus lábios correm a madrugada
Pra de manhã chegar aos teus segredos.

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.
Entre teus montes, vales escondidos.
Faço fogueiras, choro, canto e danço.

Línguas de lua varrem tua nuca.
Línguas de sol percorrem tuas ruas.
Juro beijar teu corpo sem descanso

sábado, 21 de março de 2015

O Primeiro Segundo

Cândido Pinheiro

Use todas as pontes para chegar
e todas as chaves para abrir
Use o sorriso para colorir
e o olhar para iluminar.

Use todas as energias para vibrar
e o coração para amar
Use as palavras para agradecer
e os braços para aconchegar.

Use a imaginação para criar
e todas as esperanças redobrar
Use o perdão e a tolerância
no Ano que vai chegar.

Use o primeiro segundo
e encontre-se consigo mesma
Use a beleza de teu espírito
para ao Novo Ano brindar.

Areal

Eduardo B. Penteado


I

Um dia, parti de olhos vendados
Para desbravar os desertos...
Pisoteei flores raras em teu oásis de diamante
Mas o mundo é infinitamente finito!
Sempre em frente, em minha marcha
Regressei ao ponto de partida

Foi então que vi os muros.
Encontrei uma porta sólida e impenetrável
Justa e inevitável
Cuja única chave jaz perdida
Sob as areias dos desertos de minha vida

Parto agora numa busca mais objetiva.
Buscarei a chave que abre a tua porta
Tudo que possuo agora é o tempo que me resta
Uma enorme ampulheta
Um oceano de areia
E um fio de luz que escapa por uma fresta.


II

Se fosse definir para ti este momento louco
Acho que começaria por descrever os ecos
Loucos e ocos de lógica
Que reverberam contra mim.
Às vezes sinto-me como uma caverna secreta
Um poço de sons
Uma mera estrutura de ossos, sangue e olhos
Com todo o resto a ser preenchido
Por uma expectativa de um algo mais
De um grito...

De uma louca corrida por areias úmidas
De escuridão.
De um passo em falso
Na direção de um lindo abismo
Que foge à compreensão das outras pessoas
Pois dirige sua queda para cima
Rumo a um parafuso incontrolável de descobertas
E déjà-vu
Girando, girando
Mãos, olhos, bocas, vidas, tempos...

De tempos em tempos
O ponteiro dos segundos se mexe
Um brilho de diamante me ofusca
E eu alucino.
De tempos em tempos
A porta deixa escapar um fio de luz
Instantâneo, porém intenso
Tímido, lindo e tenso
Apenas um pequenino e tímido fio de luz
Que ilumina a periferia dos desertos.


III

Tenho areia nos olhos e água pura nas mãos
Sinto uma lágrima seca no rosto
Coagulando
E em meio a uma tempestade de areia
Vejo alguém a girar,
Girando no falso redemoinho da ampulheta.
Vi meu sangue na areia
Dei as costas para a porta.

Tenho areia nos olhos e uma cascata nas mãos
Por onde escapas de mim
Grão, grão, grão após grão
Girando mãos
Girando olhos
Girando uma tranca que, simplesmente... não.

''Um olho na fechadura,'' repete o eco
Mas tem de ser diferente!
Tende a ser referente:
O arame farpado que me isola de ti
Também cerca o meu horizonte
Não vejo campos, não vejo montes
Abre então a porta do teu desejo.


IV

A lua surgiu
E cobriu meus desertos.
Aqui e ali emergem espectros
Que fitam o sangue em minhas veias
E voltam a desaparecer nas areias.
Fechei os olhos,
E dentro de minha própria escuridão,
Adormeci.

Sonhei que a areia me cobria, e gritei!

Quis esmurrar a porta, como que possuído
Mas ela se transformou em fino cristal
Frágil demais para ser destruído.
Desaprendi o limite entre o sonho e o real
E brindei à dor do não concluído.
À minha volta, a paisagem se modifica
Os espectros me chamam para outra dimensão
E do outro lado da porta de cristal
Alguém sussurra o meu nome... em vão.
Em vão!


V

Um dia, parti de olhos vendados...
Estou fora dos desertos
As areias se transformaram em pó e cinzas
Junto com os princípios básicos da paixão
Repenso estroboscopicamente aquilo que vivi
Areia, ampulheta, abismos, gritos, gritos!

Um adeus às armas
Um impossível adeus às lágrimas
Um improvável adeus aos lugares-comuns.
Ora, boa noite!
Que surpresa vê-la aqui...
Para onde ir e de onde vir?

Inocência, deixe-me rir
Inocência, leve-me para longe dos desertos
Vastos e úmidos desertos
Cobertos por uma fina película de sangue
Sangue na areia
Uma rosa branca na areia
Ela está morta, e jamais gostou de rosas
Estou livre...
O céu se partiu, e está chovendo vidro.


http://eduardopenteado.blogspot.com.br/

Talismã

Waly Salomão

Minha boca saliva porque eu tenho fome
E essa fome é uma gula voraz que me traz cativa
Atrás do genuíno grão da alegria
Que destrói o tédio e restaura o sol

No coração do meu corpo um porta-jóia existe
Dentro dele um talismã sem par
Que anula o mesquinho, o feio e o triste
Mas que nunca resiste a quem bem o souber burilar

Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?

Minha sede não é qualquer copo d'água que mata
Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
Essa sede é uma sede que só se desata
Se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia

Sonho colher a flor da maré cheia vasta
Eu mergulho e não é ilusão, não, não é ilusão
Pois da flor de coral trago no colo a marca
Quando volto triunfante com a fronte coroada de sargaço e sal

Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?
Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?

quarta-feira, 18 de março de 2015

Vi, Não Vivi

Zélia Duncan

Primeira vez que eu te vi
Meu coração não fez clique
Se ouvi ou vi, não vivi
Seu clique, seu trique-trique
Não vi sushi, sashimi
Nem eros, nem afrodite
Primeira vez que eu te vi
Primeiro vi seus limites

Vi, não vivi
Não senti onda por ti, não senti
Nem o menor apetite
Não senti o tremelique
Senti
Não me deu onda por ti
Não vivi
Não senti frenesi
Nem o menor apetite
Não senti tremelique
Senti

Não vi nenhum colibri
Não vi sua "bad trip"
Sino batendo, não ouvi
Nem vi se havia convite
Sol, búzios, nós dois ali
Com ares de casal 20
Nem com os olhos comi
Nem "veni", nem "vidi" nem "vinci"

Vi, não vivi
Não senti onda por ti, não senti
Nem o menor apetite
Não senti o tremelique
Senti
Não me deu onda por ti
Não vivi
Não senti frenesi
Nem o menor apetite
Não senti tremelique
Senti

Primeira vez que eu te vi
Contive os meus palpites
Falei de rilke, leminski
Assim que vi seus grafites

Vi, não vivi
Não senti onda por ti, não senti
Nem o menor apetite
Não senti o tremelique
Senti
Não me deu onda por ti
Não vivi
Não senti frenesi
Nem o menor apetite
Não senti tremelique
Senti

Valeu

 Paulo Leminski

Dois namorados olhando o céu
Chegam a mesma conclusão
Mesmo que a terra não passe da próxima guerra
Terra, mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer das coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor

Valeu, valeu
Valeu, valeu
Valeu, valeu
Valeu, valeu

Dois namorados olhando o céu
Chegam a mesma conclusão
Mesmo que a terra não passe da próxima guerra
Terra, mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer das coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor
Valeu, valeu...

segunda-feira, 2 de março de 2015

Tão Longe Do Chão

Luis R. Santos

Deslizo pela noite adentro à procura de paz
serena-me a alma a voz branda de um riacho
haurido pela boca férvida do estio
nem uma palha se mexe e o calor é carrasco.

Na pele sinto
a sua boca chupando-me o suor
eu sei que as sanguessugas espiam-me o sangue
na água mergulho os pés e assim sirvo-lhes a ceia
são silenciosas como a morte.

O silêncio da noite assenta-me como coroa de louros
em cabeça imperial
sentado num trono de musgo eu comando a imaginação pelos céus
à conquista de um punhado de estrelas.

Assim adormeço com um sorriso nos lábios,
tão longe, tão longe do chão...
Alheio ao festim das sanguessugas
e à canção das águas gentis.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Maravilhas Banais

Gonzaguinha

Um gato olhando a vida 'través' da vitrine
Com certeza vai morrer de tédio
E médio, é morno, e chato, é banho-maria
Com certeza suicídio prévio
Arrisco e altero a batida do meu coração
Petisco e provo do gozo da mais pura emoção
Armadilhas, curvas da trilha, ilhas de amor
Fantasias
Viagem total nas possibilidades do absurdo total
Viver vegetal tão somente me desanima
Esquinas só servem se a gente dobrar
E esbarrar no que ainda não viu
Maravilhas banais - sempre iguais
sempre diferentes quentes + gentes
A ponte, o fonte, o santo elixir do futuro
as pessoas o banal mistério
O gato olhando a vida 'través' da vitrine
é piada e é assunto sério.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Tristeza


Fernanda Young

Ora, tristeza, tente ao menos ser mais leve.
Quero de volta meus discos de dance music
que você tirou da prateleira.

E minhas roupas estampadas
que sumiram do meu armário
depois que você se instalou aqui.

Por favor, não tente entrar em contato comigo
com as velhas razões de sempre.
Não é a fria lógica dos seus argumentos
que irá guiar meu coração daqui por diante.

Quero ver a vida por outros olhos,
que não os seus.
Quero beber por outros motivos,
que não afogar você dentro de mim.

Cansei da sua falta de senso de humor
do seu excesso de zelo.
Vá resolver suas carências em outro endereço.