Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sou Sim, E Daí?

Eduardo Baqueiro

Meu amor!
Sou muito safada, sabia?
Sou sim e daí?
Se não gostas,
Eu acho quem se delicie
com esta tua safada!
Nem posso pensar em você...
Quando penso, fico toda arrepiada,
Me sobe um calor pelas pernas...
Sobe e sobe, até que me domina!
Ai ai que coisa danada...
Que tesão que me invade!
Meu sexo fica todo úmido...
Então, penso em você,
Penso que me possui,
Me domina, é meu único dono...
Sou safada, sim! Eu gosto
e quem não gosta?
Meu corpo pede seu corpo,
Meu sexo quer sentir teu sexo,
Safado e gostoso como o meu...
Sou safada, sim!
Gostas?
Se não, não tem problema...
Procuro um homem
que me queira como sou:
Safada, ordinária e bandida.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Carta

Mario Quintana

Eu queria trazer-te uma imagem qualquer
para os teus anos...
Oh! mas apenas este vazio doloroso
de uma sala de espera onde não está ninguém...
É que,
longe de ti, de tuas mãos milagrosas
de onde os meus versos voavam - pássaros de luz
a que deste vida com o teu calor -
é que longe de ti eu me sinto perdido
- sabes? -
desertamente perdido de mim!
Em vão procuro...
mas só vejo de bom, mas só vejo de puro
este céu que eu avisto da minha janela.
E assim querida,
eu te mando este céu, todo este céu de Porto Alegre
e aquela
nuvenzinha
que está sonhando, agora em pleno azul!

Estrelas

Murilo Mendes

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Em Sonhos ...

Cruz e Souza

Nos santos óleos do luar, floria
Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade
E em toda a etérea, branda claridade
Como que erravam fluidos de harmonia...

As Águias imortais da Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir à Imensidade
Onde o clarão de tantos sóis radia.

Do espaço pelos límpidos velinos
Os Astros vieram claros, cristalinos,
Com chamas, vibrações, do alto, cantando...

Nos santos óleos do luar envolto
Teu corpo era o Astro nas esferas solto,
Mais sóis e mais Estrelas fecundando!

As Duas Flores

Castro Alves

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ninguém Faz Amor Como Você

Agepê

Se eu perdi a hora... não se zangue comigo
Estive até agora... numa roda de amigos
Enquanto a gente bebe... o papo vai rolando
A gente nem percebe... o tempo vai passando
Me deixe te abraçar... não tenha ciúme porque
Ninguém faz amor como você.

Me deixe te abraçar... não tenha ciúme porque
Ninguém faz amor como você
Teu sorriso me empolga... deixa a briga pra depois
Amanhã tô de folga... o dia é de nós dois
Você sabe que esse teu carinho
Me deixa doidinho pra fazer amor
Sabe o quanto eu preciso ter
O paraíso que tem teu calor
Não pode num simples atraso
Criar tanto caso e negar teu perdão
Não me tire a esperança
Não faça vingança com meu coração, vem me dar
Vem, vem... vem me dar.. .vem, vem
Este amor gostoso... dengoso, manhoso que só você tem
Vem, vem... vem me dar... vem, vem
Este amor gostoso... dengoso, manhoso que só você tem..

Me Leva

Agepê

Tudo nasceu de brincadeira
Nas cordilheiras da ilusão.
Veio num vento sem destino;
Amor menino fez paixão.
Foi me invadindo pouco a pouco,
Me deixou louco de prazer.
Depois sumiu no mesmo vento:
Fiquei aos poucos sem você...
Deixou marcado o seu sorriso
Que não me deixa te esquecer
E me tirou do paraíso
Sem um sentido pra viver.

Me leva! Oh!, vento
Me leva pra ela!
Me leva!
Me faça ficar junto dela!
É desse amor que eu preciso;
Preciso e não posso esquecer:
Eu faço de tudo no mundo
Pra não te perder.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Outra Manhã

Fábio Golfetti

Ainda espero amanhã
A noite apaga o passado
Contato sonhos do mundo
Certeza de estar ao seu lado.

Poeira na luz do céu
Cintilam ao meu redor
Mergulho no carrossel
E escuto a última voz.

Sol imagem final
Da nossa manhã irreal
Sol imagem final
Da nossa manhã irreal

Barcas

Nau

O oceano engole todas barcas
O oceano lambe todas docas
Sei,
Os pensamentos
Os ventos levam
Muito mais longe
Feito os barcos
Mas pensamentos
Também naufragam
O mar é fundo,
É fundo!
Barcas
O oceano engole todas barcas
O oceano lambe todas docas
Sei,
Por muito tempo
Os homens erram
Cruzam o espaço
Céu infinito
Mas sei também
Que só repousam
Em terra firme
Terra!
Barcas
O oceano engole todas barcas
O oceano lambe todas docas.

Poema da Noite

Charles Chaplin

Já chorei vendo fotos e ouvindo musica;
Já liguei só para ouvir uma voz;
Me apaixonei por um sorriso;
Já pensei que fosse morrer de saudade;
E tive medo de perder alguem especial... (e acabei perdendo)
Já pulei e gritei de tanta felicidade;
Já vivi de amor e fiz muitas juras eternas... "quebrei a cara muitas vezes!"
Já abracei para proteger;
Já dei risadas quando não podia;
Já fiz amigos eternos;
Amei e fui amado;
Mas tambem já fui rejeitado;
Fui amado e não amei...

Maria

Castro Alves

Onde vais à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!

Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rede selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios...
E por tenda — a solidão!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

No Seu Corpo

Roberto Carlos / Erasmo Carlos

No seu corpo é que eu encontro
Depois do amor, o descanso
E essa paz infinita
No seu corpo, minhas mãos

Se deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo o meu momento
É mais perfeito

E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio desse abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você

E continua a viagem
No meio dessa paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado

Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado

Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos

Me envolvo e sou tragado
Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo

Muito Romântico

Caetano Veloso

Não tenho nada com isso nem vem falar
Eu não consigo entender sua lógica
Minha palavra cantada pode espantar
E a seus ouvidos parecer exótica.

Mas acontece que eu não posso me deixar
Levar por um papo que já não deu
Acho que nada restou pra guardar
Do muito ou pouco que ouve entre você e eu.

Nenhuma força virá me fazer calar
Faço no tempo soar minha sílaba
Canto somente o que pede pra se cantar
Sou o que soa eu não douro a pílula.

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior
Com todo o mundo podendo brilhar no cântico
Canto somente o que não pode mais se calar
Noutras palavras sou muito romântico.

Auto-Retrato

Antonio Miranda

Às vezes sou um, às vezes sou outro:

Todo mundo é assim, ou é assado.
Eu, sem fugir à regra, transgredi.
Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro
- um para dentro, outro para os outros
Mas, confesso, sou igual a todos
Num disfarce que é a outra face
De uma falsa dicotomia.

Nem religioso eu sou, nem romântico,
Muito menos ideólogo ou assumido
De qualquer coisa, na minha infidelidade,
Falta de fé. E, no entanto, obstinado
Quase otimista porque realista
- na reversão da contradição.

Sou um pouco o Orlando de Virginia Woolf
O Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray.

Li uma montanha inexpugnável de livros
Tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade
Subi, letra a letra, degraus estonteantes
Delirantes, construindo arquiteturas etéreas
No circulo vicioso das virtualidade banais.

Deveria rasgar todas as frases deletérias
Todas as imprecações, todas as contrafações
Verbais e veniais que produzi – lixo execrável.

Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez
De minha insensatez, minhas impropriedades
Mas sempre tenho a firmeza dos inseguros
Enquanto os crédulos, os convictos
Não resistem às próprias contradições.

Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.
No mais, sou casto na minha perversidade.
Sou beato na minha mais intima heresia.
E mais desprentensioso do que a minha soberba.

Quero dizer: no fundo sou inseguro e fiel
A princípios de que nem participo.
Deu para entender? Nem Deus pressente
Aquela dor que finjo que deveras sinto
Ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Poema Para A Amiga


Affonso de Sant'Anna

Fragmento 1

Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.
Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.
Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.
Por isto é que te sinto
com tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.


Fragmento 2

Eu sei quando te amo:
é quando com teu corpo eu me confundo,
não apenas nesta mistura de massa e forma,
mas quando na tua alma eu me introduzo
e sinto que meu sangue corre em ti,
e tudo que é teu corpo
não é que um corpo meu
que se alongou de mim.
Eu sei quando te amo:
é quando eu te apalpo e não te sinto,
e sinto que a mim mesmo então me abraço,
a mim
que amo e sou um duplo,
eu mesmo
e o corpo teu pulsando em mim.


Fragmento 3

É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.
Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.
E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te,
e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.


Fragmento 4

As vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste
e nunca o saberias.
Sozinho a sós contigo
em mim mesmo eu te criava,
em mim te possuía
De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei
e nunca o saberias
Contudo, em paz
eu recebia o carinho,
compungindo o recebia,
tranqüilo em meu silêncio
e tão tranqüilo e tão sozinho
que calmamente eu consentia:
- que ainda que muito me tardasse
mais ainda, um outro tanto, eu sempre esperaria.


Fragmento 5

Tanto mais eu te contemplo
tanto mais eu me absorvo
e me extasio
Como te explicar
o que em teu corpo eu sinto,
o que em teus olhos vejo,
quando nua nos teus braços
no meus olhos nua,
de novo eu te procuro
e no teu corpo vou-me achar?
Como te explicar
se em teu corpo eu me eternizo
e de onde e como
sendo eu pequeno e frágil
pelo amor me dualizo?
Tanto mais eu te possuo
tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.
E à força de tanto contemplar-te
e de querer-te tanto,
já pressinto que em mim mesmo
eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,
pouco a pouco fui mudando
para o teu ser de graça cheio.


Fragmento 6

Estás partindo de mim
e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vai levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.
Tanto mais tu me despedes
e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança de teu ser
me conformando.
Estás partindo de mim
e eu pressinto
na verdade, há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito.
Mas não és a única que partes
nem eu o único que fico:
sei que juntos e contrários
nos partimos:
-pois tanto mais nos desencontros nos revemos,
tanto mais nas despedidas consentimos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija!