Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Recanto Feliz

João Flávio de Souza Barros

Tristeza já foi embora
aqui não volta mais
agora chegou a hora
deixo meu adeus e meu até mais,
estou partindo pra fleixeira
terra boa das gerais
vou visita todos por lá
não posso esquecer do tio Brás,
homem forte, destemido pra caçar
levarei minha rede
para as sombras desgustar
na beira do cochá armá-la
quando estiver a pescar
ouça o barulho da cachoeira
águas claras do gibão,
êta coisa boa este meu sertão
Tudo por lá encontro
a terra é de todos não precisa discutir
quantos cajus, xiriri, buriti...
olha que fartura é época de pequi
minha família toda unida
muitos estão longe, muito longe daqui
a esteira forada debaixo dos manguezáis
quantas lembranças me traz
na cabeça de minha mãe
pensamentos gratos
e uma grande bacia de pratos
nas vargens cavalos, pichocas e coelhos
agradeço ao meu pai pelos conselhos
só de pensar fico em paz comigo
adeus amigo,
parto agora para o meu paraíso.

Sonhei Que Viajava Com Você

Itamar Assumpção

Sonhei que viajava com você num galeão
Que navegava pelo mar sem medo de tubarão
Para o Oriente sempre em frente íamos então
Longe da nossa casa longe do nosso sertão
A sós a bordo pelos mares destino Japão
Um baú com samba caipirinha com quentão
Pra tocarmos com arroz karatê meditação
Pra trocarmos com ninja tatame com precisão.

Sonhei que viajava com você em um balão
Que flutuava muito acima de um vulcão em erupção
Para o Oriente vento quente pés longe do chão
Voava sem ter asas como a imaginação
Nós dois bem alto sãos e salvos rumo ao Japão
Numa sacola mel laranja manjericão
Pra trocarmos com saquê com choiú dedicação
Pra trocarmos com judô afurô com decisão.

Sonhei que viajava com você num avião
Que deslocava-se quebrando a barreira do som
Para o Oriente velozmente era a direção
Batia suas asas a nave total perfeição
Pra ser exato voávamos indo para o Japão
Na mala cuia carne-seca farinha e feijão
Pra trocarmos com sushi com banchá com devoção
Pra trocarmos com hay kai samurai com vídeo som

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Escrito Nas Estrelas

Carlos Rennó / Arnaldo Black

Você pra mim foi o sol
De uma noite sem fim
Que acendeu o que sou
E renasceu tudo em mim

Agora eu sei muito bem
Que eu nasci só pra ser
Sua parceira, seu bem
E só morrer de prazer.

Caso do acaso
Bem marcado em cartas de tarôt
Meu amor, esse amor
De cartas claras sobre a mesa
É assim...

Signo do destino
Que surpresa ele nos preparou
Meu amor, nosso amor
Estava escrito nas estrelas
Tava, sim...

Você me deu atenção
E tomou conta de mim
Por isso minha intenção
É prosseguir sempre assim.

Pois sem você, meu tesão
Não sei o que eu vou ser
Agora preste atenção
Quero casar com você.

sábado, 27 de novembro de 2010

Custe O Que Custar

Michael Sullivan/ Paulo Massadas

Guarde um pedacinho de você
Pra lembrar de mim a vida inteira
Pede ao coração não esquecer
Nossas emoções e brincadeiras
Sempre que você quiser estou contigo
Pra você desabafar um ombro amigo
Num cantinho, num amor, numa cabana
É possível acreditar quando se ama
Por isso
Tudo pode acontecer
Faço parte de você
Quando o coração decide não tem jeito
Sonho o que sonhei pra mim
Fogo de um amor sem fim
Nada poderá mudar o que está feito
Custe o que custar
Nem que leve a vida inteira
Eu quero ter você
Só quem ama não se cansa de esperar
Como eu te amo, te amo...

Ninguém Te Amou Assim

Beno Cézar / Solange de Cézar

Se você quer brincar
Eu posso ser a chuva
Molhando os teus cabelos
Sentir teu coração
Sentir o teu apelo
E se quiser amar
Vou ser tua namorada
E se quiser chover
Faço em papel marchê
Uma noite enluarada
Invento um mundo só pra gente
Tudo diferente, nosso paraíso
Vento que ventou saudade
Traz felicidade
Meu primeiro amor
Ninguém te amou assim
Do jeito que eu te amo
Cuida do que é teu

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Canção Louca

William Blake

A brava brisa brame
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.

Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.

Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.

Tradução de Regina de Barros Carvalho

Jura-Me

Agnaldo Rayol

Todos dizem ser mentira que te quero
Que jamais me haviam visto apaixonado
Eu te juro que eu mesmo não entendo
A razão do meu viver desesperado.

Quando estou perto de ti estou contente
Eu queria que de nada tu lembrasses
Tenho ciúme até do pensamento
Que possa recordar-te
Outra pessoa amada.

Jura-me
Que hás de ter no pensamento
A lembrança do momento
Em que eu te conheci.

Olha-me
Com o teu olhar profundo
Que é a coisa deste mundo
Mais bonita que eu já vi.

Beija-me
Com um beijo apaixonado
Como nunca fui beijado
Desde o dia em que nasci.

Ama-me
Com fervor e com loucura
Saberás da amargura
Que estou sofrendo por ti.

À Brasileira

Adriana Calcanhotto

Eu adoro uma morena sacudida
De olhos negros e faces cor de jambo
Lábios rubros, cabelos de azeviche
Que me mata, me enfeitiça
Põe-me bambo
A cintura, meu Deus, é delicada
O seu porte é faceiro e bem decente
As mãozinhas são enfeites, são berloques
Que fazem enlouquecer a toda a gente
A morena a quem amo, a quem adoro
Não me sai um só momento da idéia
É faceira, dengosa e muito chique
Tem um pé, que beleza, que tetéia
Há segredos que me diz naquele corpo
Tremeliques, desmaios, sensações
Que nos põe a cabeça andar a roda
Sonhando com delícias, com paixões
Seus dentes são marfim de alto preço
Sua boca, um cofre perfumado
O resto do corpinho uma delícia
O melhor é não dizer, ficar calado

Quem Vem Pra Beira Do Mar

Dorival Caymmi

Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar
Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína
A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Nunca mais quer voltar

Toque-Me

Itamar Assumpção

Toque baião, toque frevo,
Toque rock, toque rumba,
Mas não toque nesse assunto
Toque tudo sempre assim
Só não toque nesse assunto
E nunca toque no fim
Toque paixão, toque samba,
Toque funk, toque mambo
Toque só porque eu mando
Toque o mundo, toque fundo
Eu quero que você se toque
Em cada parte de mim

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Língua

Caetano Veloso

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem

Sujeito A Chuvas & Trovoadas

Itamar Assumpção

Falam isso, falam aquilo,
falam assado, falam cozido
Mas na verdade... na verdade

Eu sou sujeito a chuvas e trovoadas
Sendo assim desse jeito
Nunca terei namorada
Eu fico sempre entre a cruz e a espada
Será que compro feito ou será que faço em casa
Se isso posso ócio já não posso
Isso é o osso isso é só isso
Ninguém é fácil nem é manso bicho
Meu negócio é mulher pra qualquer negócio.

Resta-me saber o que tem a ver
Filmes que não vi com o disco do Djavan que ouvi
Já que tudo leva a crer não ser por aí
O caminho que vai dar aqui
Viver às vezes é morrer de tédio e de vício
Também de ataque de míssil
Viver é virar de ponta cabeça o avesso
E não se fala mais nisso...

Eclipse Em Meia Lua

Carlos Careqa / Arrigo Barnabé / Adriano Sátiro

Certo dia houve uma noite
De total e profunda escuridão
Numa gruta da floresta
O pavor tinha um som de berimbau
Joelson tocava
Tremia e não calava
Chamando a morte pro seu chão
Xamã de seu próprio medo
Só sabia que tinha que viver
Se o combate era o segredo
Mataria esse medo de morrer
A lua fugida
Levou a luz da vida
Capoeira na escuridão
Só um olho clareava
No estalo da pedra com o facão
E o negro soluçava
Enfrentando o escuro do clarão
O corte no dedo
Levou embora o medo
Tornando toda noite azul.

Pô, Amar É Importante

Hermelino Neder

Pô, amar é importante
Cê não imagina a aflição que eu fico
Quando estou contigo ou não estou...

Eu tenho dois amigos
Se chego pra eles e digo
Das nossas jogadas um pouco
Por vezes curtem dizendo
- Você é muito louco!
Outras vezes nada, nada dizem
Mas pinta um mal-estar em nossa cara
Que tá nos olhos, que eles pensam
"Esse moço é neurótico!"

Eu não sei o que você acha
Se sou gostoso ou bonito
Eu só sei que ando um pouco oprimido
Um pouco nervoso
Por exemplo, quando vou te ver
Não sei se boto o tênis bamba
Ou se amarro os retalhos
Eu só sei que gosto do seu corpo pra caramba...

Pô, amar é importante
Cê num imagina a aflição que eu fico
Quando estou contigo ou não estou...

Tua Boca

Itamar Assumpção

A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de grudar uma na outra
E sugar bem devagar,
gota por gota
Beija-flor beijando a flor
ou borboleta.

A tua boca me dá água na boca
Que vontade de rasgar a nossa roupa.
Vamos pra qualquer lugar,
praquela gruta
Pra qualquer quarto de hotel
praquela moita.

A tua boca me dá água na boca
Que vontade de gritar, é uma bomba
Acho que vai rebentar, desgraça pouca.

Azar eu vou me matar na sua boca
Azar eu vou me matar na sua boca.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pesadelo

Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã

Olha aí...
Olha aí...
Olha aí...