Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

domingo, 19 de julho de 2009

Sonho

Junqueira Freire

Era um bosque, um arvoredo,
Uma sagrada espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem um pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.

Ali pensei que sonhava
Com a donzela que me inspira,
Que põe-me nas mãos a lira,
Que põe-me o estro a ferver;
Que me acalenta em seu colo,
Que me beija a vasta crente,
Que me obriga a ser mais crente
No Deus que ela julga crer.

Sonhei com a visão dourada,
Que todo o poeta sonha,
— Idéia gentil, risonha,
Tão poucas vezes real!
Que só, com o peito abafado,
Se vai de noite em segredo
Contar no denso arvoredo
Ao cipreste sepulcral.

Mas, despertando do sonho,
Que aos homens não se revela,
Achei comigo a donzela,
Me apertando o coração,
E ainda presa a meus lábios,
Entre um riso, entre um gemido,
Murmurou-me ao pé do ouvido
— Que não era um sonho, não. —

E não mais, enquanto vivo,
Deixarei esta espessura,
— Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem o pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.

Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Eu Sou Vertical

Sylvia Plath

Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.

domingo, 14 de junho de 2009

Último Credo

Augusto dos Anjos

Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro -- este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,
na generalidade descrente
Com que a substância cósmica evolui...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular eu que ontem fui!

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão -- esta pantera --
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente invevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
o beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Revanche

Lobão & Bernardo Vilhena
Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais...
A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais...
O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche

domingo, 7 de junho de 2009

Ângulos

Eduardo Gudin & Arrigo Barnabé & Caetano Veloso

Curvas dos sapatos
Espelhando esquinas
Números exatos
Cortam-se na brisa
Sóis luzem nos dentes
Você me diz
Vamos parar
Os ângulos retos
Domam seus cabelos
Automóveis pretos
Refletem sapatos
Lábios quase opacos
Você me diz
Vamos parar
Na sua voz
Passam tantas notas
Que não param pra notar
Dedos na mão
Que dorme à sombra do momento
Contam tempos soltos pelo bar
E o amor
Nuvem nos topos
Não encontra lagos
A curva dos copos
Reflete automóveis
Olhos quase secos
Você me diz
Vamos parar
Lágrima no pelo
Espelhando a nuvem
Álcool sobre o gelo
Nenhuma palavraUnhas sobre a louça
Você me diz
Vamos parar

Saudade Dada

Fernando Pessoa

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Helindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Ah!

Luiz Tatit

Ah!
Não pode usar qualquer palavra
Então é por isso que não dava
Eu tentava, repetia, achava lindo e colocava
Se não cabe, se não pode
Tem que trocar de palavra
Ah!
Mas é tão boa essa palavra
Carregada de sentido com um som tão delicado
Agora eu vou ter que trocar?
Ah! Vá se danar
Ah! Tem que caber?
Ah! Ninguém repara
Ah! Tem que entender?
Ah! Mas tá na cara
Então muda?!?
Han... han...
Hum
Chiiii
Ai ai ai ai ai ai ai
Han?
Haa tá
Nossa!
É isso?!
Hei!
Hou!
Ara!
Ah!
Ah!

Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto

Dado Villa-Lobos & Renato Russo & Marcelo Bonfá

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,
Porque esperar
Se podemos começar
Tudo de novo?
Agora mesmo,
A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance,
O sol nasce pra todos,
Só não sabe quem não quer,
o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,
Até bem pouco tempo atrás,
Poderíamos mudar o mundo,
Quem roubou nossa coragem?
Tudo é dor,
E toda dor vem do desejo,
De não sentimos dor,
Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só

sábado, 6 de junho de 2009

Desamparinho

Tiago Torres da Silva
música: Swami Jr.

Quando fico só
me dói uma tristeza
mulherando meu olhar
desvendando o céu
à procura de luz
numa noite sem luar
se você se vai
me mulato de dor
desconsigo de sorrir
me vejo mindinha
em passos dorminhosos
já me sozinhando ir
desnasci de ter
me poentei de sol
me fiz noite e me luei
e agora que sou
o silêncio de ser
desaprendo o que ensinei.

Enviada por: Divina Reis Jatobá

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Prazer Solitário

Cy Mrzepka

Prazer solitário que se contorce,
me faz rolar na cama toda arrepiada,
molhada no aconchego dos travesseiros,
sou acariciada com dedos na quina
do convexo...

O prazer se faz em luz e cor,
Tudo começa dançar
freneticamente colorido.
aos poucos vai diminuindo...
tudo fica em branco e preto.
É o protesto firme do côncavo lascivo
que também quer!!!

Serás... Serei... ( Motivo Lírico )

J G de Araujo Jorge

I

Serás as nuvens,
serei o ar;
serás a noite, a Lua,
ou a praia sensual onde o mar tumultua,
- serei o mar;
serás a seiva, a terra,
a flor que abre a corola e as pétalas descerra,
ou uma deusa, e terás os teus cabelos verdes
e a humildade feliz de um girassol...
Serei o vento, o pólen, a ave inquieta
o dia claro e sem véus,
o deus primeiro, o poeta,
o fauno loiro dos céu
- serei o Sol

II

Serás a mata a trescalar perfume
na noite escura,
- serei o vaga-lume
à tua procura!
Serás a mata cerrada
e sombria,
tecida e emaranhada
como um ninho...
- serei a estrada
abrindo a mataria!
- serei o caminho!

III

Serás a estrela pequenina, pura
e brilhante,
ou a fonte que murmura
no coração da rocha de granito...
Serei o rio gigante,
ou o cume da montanha a desafiar a altura,
- serei o Infinito!

IV

Serás a pérola guardada
no estojo de uma concha nacarada,
polida e rebrilhante,
redonda, redondinha como as pupilas
tranqüilas
do teu olhar
Serei o diamante
envolto na ganga rude,
fiquei na terra
e não pude
ser polido pelo mar!

V

Serás a esperança que anima e seduz,
uma voz na distância
ou uma canção!
- Serei um hino!
Serás a luz!
a ilusão
- serei a ânsia,
o destino!

VI

Serás eternamente a imagem
desejada,
a miragem
que me acompanha os passos pela estrada,
seja para onde for,
- serás a visão perseguida!
Serei o conquistador!
Serás a vida!
Serei o amor!
Poema de JG de Araujo Jorge - do livro Eterno Motivo
- Prêmio Raul de Leoni, da Academia Carioca de Letras - 1943

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Romance

Arthur Rimbaud

I

A gente não é sério com dezessete anos.
— Uma bela noite, longe dos chopes e do anseio
Dos cafés barulhentos de lustres soberanos
— Vamos sob as tílias, verdes do passeio.


As tílias cheiram bem nas boas noites de junho!
O ar é às vezes tão doce que fechamos os olhos;
A cidade não está longe — o vento é testemunho —
Há perfumes de vinhedo e perfumes de cerveja...


II

— Eis que percebemos um pano pequenino
Azul-escuro, ladeado por um pequeno galho,
Com uma estrelinha má, sumindo
Aos doces arrepios, branca como orvalho...


Noite de junho! Dezessete anos! Embriagados.
A seiva é champanhe e lhe sobe à cabeça...
Divagamos; sentimos um beijo nos lábios
Que palpita lá, feito um bichano...


III

O coração louco vagueia como num romance,
— Quando, na luz de um pálido lampião,
Passa uma senhorita com encantos de relance,
Na sombra do colarinho temível do seu pai...


E, já que ela lhe acha imensamente ingênuo
Enquanto deixa trotar as suas botinas,
Ela se vira, alerta com um movimento tênue...
— Nos teus lábios então morrem as cavatinas...

IV

Você está apaixonado. Tomado até o mês de agosto.
Você está apaixonado. Seus poemas a fazem rir.
Todos os seus amigos fogem, você é de mau gosto.
— E a adorada, uma noite, concedeu-lhe uma carta!...


— Esta noite... — você entra nos cafés soberanos,
Você pede limonada ou um chope cheio...
— A gente não é sério com dezessete anos
E quando tem as tílias verdes do passeio.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Eu

Maiakóvski

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneo de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoço de torres
oblíquas

soluçando eu avanço por vias que se encruzi-lham
à vista
de crucifixos

polícias


(tradução: Haroldo de Campos)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Há Um Não Sei Que

Cassandra Rios

Há um não sei que de fascinante
no teu modo autoritário de falar.
Há qualquer coisa provocante
na força penetrante do teu olhar.
Há uma promessa insinuante
no teu jeito de andar.
E em cada gesto uma suavidade cativante
uma ânsia escondida de quem sabe provocar.
E o que mais me perturba, francamente
eu queria agora te contar
mas é tão imenso e tão embriagante
que eu tenho medo de falar!

"Eu te desejo!"

Annabel Lee

Edgar Allan Poe
Tradução: Fernando Pessoa

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.