Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

domingo, 28 de setembro de 2008

Coração Leviano

Paulinho da Viola

Trama em segredo teus planos
Parte sem dizer adeus
Nem lembra dos meus desenganos
Fere quem tudo perdeu

Ah coração leviano não sabe o que fez do meu
Ah coração leviano não sabe o que fez do meu (mas trama)
Este pobre navegante meu coração amante

Enfrentou a tempestade
No mar da paixão e da loucura
Fruto da minha aventura
Em busca da felicidade

Ah coração teu engano foi esperar por um bem
De um coração leviano que nunca será de ninguém

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Guerra

Fernando Pessoa

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza
os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

sábado, 13 de setembro de 2008

Lenda

Arrigo Barnabé / Eduardo Gudin / Hermelino Néder / Roberto Riberti

Onde mora o sonho
E a lua é o lustre de cristal.
Tem um rei risonho que aboliu
o bem e o mal.

Pôs em seu lugar mil pássaros de cor.
Que num gorjear
Secam qualquer lágrima de dor.

Um rei popular, rei da poesia e das canções.
E seu terno olhar são dois pequenos corações.
Como fui chegar nesse incrível país.
Sei que precisava de estar um pouco só feliz.

Era uma tormenta a atormentar em vão.
Um desespero cheirando à paixão.

Quarto de espelhos que queriam me tragar.
Então qual claridade que põe-se a vazar.
De uma janela num amanhecer.
Pude ler essa lenda em você.

Jardim Das Gueixas

Cabine C

Sentado em cima da pedra vejo clarões no céu.
Os sonhos que já sonhei encontro nesse lugar.
Entre orquídeas e pontes cores a decifrar.
Jardim das Gueixas, o sonho leva às minhas mãos.

Os tigres que já enfrentei agora cuidam de mim.
As mãos que pegam nas minhas me convidam pra ver.
Os raios de um sol: Cor passando pelos vitrais.
Jardim das Gueixas, o sonho leva às minhas mãos.

Jardim das Gueixas, o sonho leva às minhas mãos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Provérbios Do Inferno

William Blake

O matrimônio do Céu e do Inferno:

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Carne & Osso

Abílio/Caíca/Luiz Gustavo/Humberto Effe

Você é minha cadeia
enjaulado fico preso no seu corpo
você me caça em suas teias como seu escravo
selvagem não me canso
pra que fugir?
Me entregar é a única saída
como seu escravo me perdi na sua selva

O meu coração o meu coração
preso nessa cela abre as pernas da sua paixão

O mundo anda mal mas sou eu que não presto
sou resto de uma idéia, de uma nova rebeldia
o povo dessa selva se balança de alegria
vejo a tristeza se encharcar de euforia

Bamba balança balança suas rédeas
querem o meu leite o suor das minhas tetas
você me encontrou e fechou todas as portas
bebe do meu leite do suor das minhas tetas.

O meu coração o meu coração
preso nessa cela abre as pernas da sua paixão

Enquanto feras estão soltas você me tortura a cada carência
e a cada violento arranhão
se pensa que isso é paixão esqueça
certas coisas não se sentem só no coração

Será que alguém entende o meu amor
você deve compreender o meu estranho jeito
de ser demente escravo do seu corpo
ou também acha esse o meu maior defeito?

O meu coração o meu coração
preso nessa cela abre as pernas da sua paixão

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Pregador Maldito

Patife Band

Você não têm escolha, junte-se a nós
Não há escolha.
Seu Bolha!

Você encheu a cara
E tá de perna bamba
Você anda e a tua bunda espicha
Seu Bicha!

A tua idéia é curta
Você vive travado
O teu amigo é chato
Você tá um bagaço
Palhaço!

O teu dia é duro
Você tá sem um troco
Você não vale nada
Você é sempre o último

Você só pensa nisso
Você só pensa nisso
Você só pensa nisso

Baratas no teu quarto
Mosquitos no teu prato
Friera no teu dedo
Sujeiras no teu sangue

Seu Junkie!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Voz Do Poeta

Fagundes Varela

Perdão, Senhor meu Deus! Busco-te embalde
Na natureza inteira! O dia, a noite,
O tempo, as estações mudos sucedem-se,
Mas eu sinto-te o sopro dentro dalma!
Da consciência ao fundo te contemplo!
E movo-me por ti, por ti respiro,
Ouço-te a voz que o cérebro me anima,
E em ti me alegro, e canto, e penso!

Da natureza inteira que aviventas
Todos os elos a teu ser se prendem,
Tudo parte de ti e a ti se volta;
Presente em toda a parte, e em parte alguma,
Íntima fibra, espírito infinito,
Moves potente a criação inteira!
Dás a vida e a morte, o olvido e a glória!
Se não posso adorar-te face a face,
Oh! basta-me sentir-te sempre, e sempre!

Eu creio em ti! eu sofro, e o sofrimento
Como ligeira nuvem se esvaece
Quando murmuro teu sagrado nome!
Eu creio em ti! e vejo além dos mundos,
Minha essência imortal brilhante e livre,
Longe dos erros, perto da verdade,
Branca dessa brancura imaculada
Que os gênios inspirados nesta vida
Em vão tentaram descobrir no mármore!

domingo, 10 de agosto de 2008

Mãos Dadas

Cassandra Rios


Mãos dadas!
Tu e eu!
Sempre de mãos dadas!
Fizemos amor assim!
Sentimos o gozo percorrer nossos corpos
entre arrepios que surgiam
da palma das nossas mãos unidas,
dedos entrelaçados!
Viste, amor! Isso é a electrostática da
[alma!
Aquele arrepio que sentimos,
quando nos olhamos
e quando estremecemos de emoção
só no simples gesto de mãos dadas!
Que extraordinária força
descobrimos em nós
quando vibramos simultaneamente
a esse simples contato.

É a eletricidade da vida que explode em amor!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Canto Em Qualquer Canto

Itamar Assumpção

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo

Fogo Escondido

Jô Oliveira - do livro Érebos (1990)

Boutade! Boutada!
Ninguém toca nossa loucura
nossa música
clochards mrtos na rua congelados
o frio ártico causa mortes & caos.

Europa! Europa!
Naves brilhantes sob o céu
falacha noite etíope
África do Sul
crossaroads on the run
a língua iorubá nação nagô
atotô, meu pai!

Minas meninas gerais
noredeste em flor
no ar das montanhas distantes do mar
guerreiros em palhas
tribos & nômades
penetram no teu bourdois...

sábado, 2 de agosto de 2008

A Uma Mulher

Paul Verlaine

Para vós são estes versos, pela consoladora
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho
Doce, pela vossa alma pura e sempre boa,
Versos do fundo desta aflição opressora.

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento,
Multiplica-se como um cortejo de lobos
E enforca-se com o meu destino que ensangüenta!

Ah ! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido
Desse primeiro homem expulso do Paraíso
Não passar de uma écloga à vista do meu !

E os cuidados que vós podeis ter são apenas
Andorinhas voando à tarde pelo céu
- Querida - num belo dia ameno de setembro.

Canto De Outono

Baudelaire

I


Em breve iremos mergulhar nas trevas frias;
Adeus, radiosa luz das estações ligeiras!
Ouço tombar no pátio em vibrações sombrias
A lenha que ressoa à espera das lareiras.

Em meu ser outra vez se hospedará o inverno:
Ódio, arrepio, horror, labor duro e pesado,
E, como o sol a arder em seu glacial inferno,
Meu coração é um bloco rubro e enregelado.

Tremo ao ouvir tombar cada feixe de lenha;
Não faz eco mais surdo a forca que se alteia.
Minha alma se compara à torre que despenha
Aos pés do aríete incansável que a golpeia.

Parece-me, ao sabor de sons em abandono,
Que alhures um caixão se prega a toda pressa.
Para que? - Ontem era o verão; eis o outono!
Rumor estranho de quem parte e não regressa...


II

Amo em teu longo olhar a luz esverdeada,
Doce amiga, mas hoje amarga-me um pesa,
E nem o teu amor, o lar, a alcova, nada
Vale mais do que o sol raiando sobre o mar.

Mas ama-me assim mesmo e cheia de ternura,
Sê mãe para o perverso, o ingrato em todo caso;
Sê, amante ou irmã, a efêmera doçura
De um outono glorioso ou a de um sol no ocaso.

Breve é a missão! A tumba espera, ávida,à frente!
Ah, deixa-me, a cabeça em teus joelhos pousada,
Degustar, recordando o estio claro e ardente,
Deste fim de estação a suave luz dourada!

Silêncio

Edgard Allan Poe

Há qualidades incorpóreas, de existência
dupla, nas quais segunda vida se produz,
como a entidade dual da matéria e da luz,
De que o sólido e a sombra espelham a evidência.

Há pois, duplo silêncio; o do mar e o da praia,
do corpo e da alma; um, mora em deserta região
que erva recente cubra e onde, solene, o atraia
lastimoso saber; onde a recordação

O dispa de terror; seu nome é "nunca mais";
E o silêncio corpóreo. A esse, não temais!
Nenhum poder do mal ele tem. Mas, se uma hora

Um destino precoce (oh, destinos fatais!)
Vós levar as regiões soturnas, que apavora
sua sombra, elfo sem nome, ali onde humana palma

Jamais pisou, a Deus recomendai vossa alma!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Verde

Eduardo Gudin

Quem pergunta por mim
Já deve saber
Do riso no fim
De tanto sofrer
Que eu não desisti
Das minhas bandeiras
Caminhos, trincheiras da noite

Eu que sempre apostei
Na minha paixão
Guardei um país
No meu coração
Um foco de Liz
Seduz a razão
De repente a visão da esperança!
Quis este sonhador
Aprendiz de tanto suor
Ser feliz num gesto de amor
Meu país acendeu a cor

Verde as matas no olhar
Ver de perto
Ver de novo um lugar
Ver adiante
Sede de navegar
Verdejantes tempos
Mudança dos ventos no meu coração

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Senhora Feliz

Hojerizah
As longas datas
Em que passei
Perdido na cadência
Dos dias
São breves os dias
Em que alcancei
Os doces olhos
Da senhora feliz
Que acena o seu manto
E me diz venha cá

Deixes ver
O que queres senhora
O riso e o gozo
Das alegres temporadas
Que procura todo homem
Como cego sem chão

Abram suas alas
À dama do esplendor
Se ouvir um grito
De loucos ao redor
Eles são teus filhos,
Muitos filhos são
Senhora feliz és a mãe de um crime, senhora feliz
Bom e generoso e sorris
Quando esbofeteias e
Ofendes o corpo com os dias
Feliz velho
Feliz criança
Senhora feliz

Pisei em vão na longa estrada
Perdido na estrela furtiva
Que sobe e desce na madrugada
Como um pássaro ferido
Que estremece o seu vôo
Nos lençóis que virgem amou
Abra as asas como um leque senhora
Seja o abrigo e beijes
As esperanças vadias
Que encontram tuas garras
Procurando por tua mão

Palmas, muitas flores
Imagens de pavor
Se ouvir um grito
De loucos ao redor
Eles são teus filhos,
Muitos filhos são
Senhora feliz