Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

sábado, 23 de agosto de 2014

Cavador Do Infinito

Cruz e Souza

Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Que Aconteceu Comigo

Maiakovski 

As esquadras acodem ao porto.
O trem corre para as estações.
Eu, mais depressa ainda,
vou a ti,
atraído, arrebatado,
pois que te amo.
Assim como se apeia
o avarento cavaleiro de Púchkin
alegre por encafuar-se em seu sótão,
assim eu
regresso a ti, amada,
com o coração encantado de mim.
Ficais contentes de retornar à casa.
Ali vos livrais da sujeira,
raspando-vos, lavando-vos,
fazendo a barba.
Assim retorno eu a ti.
Por acaso,
indo a ti não volto à minha casa?
Gente terrena ao seio da terra volta.
Sempre volvemos à nossa meta final.
Assim eu,
em tua direção me inclino
apenas nos separamos
mal acabamos de nos ver.

Verossímel

Adélia do Prado

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
"Canta alto, espevita as palavras bem."
Eu levantava vôo rua acima.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Soneto

Alphonsus Guimaraens

Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, abril, maio, janeiro, ou março.

Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?

Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira,
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Grande Amor

Thais Guimarães

ao poeta João Batista Jorge

Posto o morto, raso o poço.
Precisei retornar.
E retornei para olhar
o corpo do amor
que não me coube enterrar.

Foi longo o tempo
entre carne e terra
entre terra e ar
palavra e poesia.

Hoje, compreendo o que morre
e o que nunca morrerá

domingo, 18 de maio de 2014

Os Espaços

Felipe Fortuna

Abro um armário que não tem Deus
e, portanto, serve para pendurar
as roupas daquele dia. No dia
seguinte, o mesmo armário demonstra
que será assim, sem Deus, embora eu me vista.

Os dias passam de portas abertas ou fechadas
e roupas sem providência me cobrem
Vou pela rua e me segue o espaço desse armário
e não retiro do bolso nem carta nem mesmo
o peso da camisa tão necessária.

Quando me dispo, a roupa volta ao armário?
Diante das portas, nem sempre decido
– e o que faço é deixar ou não pendurada
a forma do meu corpo, que preenche
a nudez que um dia também pendurarei lá dentro.

sábado, 17 de maio de 2014

Poema Oblíquo

Fernando Fábio Fiorese Furtado

A tarefa
até o fim adiada
revolve o mesmo bolso
a mão esquerda empena
a direita entorna
– pouco para um horizonte
em algibeira vazia
relógio desanda
um manual de verticais
os modos de saber
são modos de adoecer:
manuseá-los não cura
e nada que escreva
o remédio apura

Um Beijo

Rumo

Um beijo
tão doce quanto o mel
que essa mulher produz em seu trabalho
tão quente como as mãos daquele homem
que me olha como se dissesse
"vem, eu amo"
oh minha mãe do céu eu amo inteiro
o mel com que tu me alimentas
eu amo, oh meu rei dos mares
o calor das mãos com que me acaricias
oh minha fada, meu rei
trago em minha boca um gosto amargo de tanto mel
arde no meu peito um menino
que não me deixa em paz
por tudo o que fizemos, por todo amor que possuímos
atenda!
eu só quero um beijo
mais nada...

domingo, 11 de maio de 2014

Disparada

Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Pras coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

sábado, 10 de maio de 2014

Você É Má

Zeca Baleiro

Vá se danar!
Você dá nada a ninguém
Nem um olhar
Nunca falou tudo bem
Tem, mas não dá
Sorrir jamais lhe convém
Você é má
Mas há de ter um bem
Você dá nada a ninguém
Vá se danar!
Danada, não perde o trem
Sabe nadar
Mas nada sabe de alguém que sabe amar
Eu quero ser seu bem
Você é má
Você é maluca
Você é malina
Você é malandra
Só não é massa
E você magoa
E você massacra
E você machuca
E você mata!
Vá se danar!
Você dá nada a ninguém
Nunca dará
Nem mesmo um simples amém
A Deus dirá
Diz que não vai à Belém
Você é má
Mas pode ter um bem
Você dá nada a ninguém
Vá se danar!
Danada, finge tão bem
Sabe negar
Jamais dá a quem tem demais pra dar
Mas eu serei seu bem
Você é má
Você é maluca
Você é malina
Você é malandra
Só não é massa
E você magoa
E você massacra
E você machuca
Você mata!
Você é maluca
Você é malina
Você é malandra
Só não é massa
E você magoa
E você massacra
E você machuca
E você mata!
Vá se danar!
Você dá nada a ninguém
Nunca dará
Nem mesmo um simples amém
A Deus dirá
Diz que não vai à Belém
Você é má
Mas pode ter um bem
Você dá nada a ninguém
Vá se danar!
Danada, finge tão bem
Sabe negar
Jamais dá a quem tem demais pra dar


Mas eu serei seu bem
Você é má
Você é maluca
Você é malina
Você é malandra
Só não é massa
E você magoa
E você massacra
E você machuca
Você mata!

Sozinho


Caetano Veloso

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

sábado, 19 de abril de 2014

Sem Cobranças

Pedro Torres

Não se cobra atenção, nem sentimento
Que se não vem por gosto não compensa.
Pois, se for pra valer que me convença
Não com frases, mas por comportamento.

Há dois fins naturais pra o sofrimento:
Ou uma espera ao final tem recompensa
(Pondo fim ao que lhe causava a ofensa)
Ou deleta-se o amor do pensamento!

Nunca é fácil acertar na decisão
Mas, o amor não nasceu pra o coração
Viver sempre sentindo, apenas, dor...

Quem espera demais um dia cansa
E eu não vou lhe fazer qualquer cobrança
Mas, não espere eu voltar quando eu me for!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

No Silêncio Dos Olhos


José Saramago

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho  se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

Poema XVIII

Pablo Neruda

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.

Não, não se desfia a rede dos anos: não hà rede.
não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando em teus ossos.

sábado, 12 de abril de 2014

Papoulas De Julho

Sylvia Plath
(Tradução: Afonso Félix de Souza)


Ó  papoulinhas, pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?

Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.

E me fatiga ficar a olhá-las.
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.

Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!

Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?

Se eu pudesse sangrar, ou dormir!
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida!

Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.

As Palavras

Octavio Paz
(Tradução: Haroldo de Campos)

Girar em torno delas,
virá-las pela cauda (guinchem, putas),
chicoteá-las,
dar-lhes açucar na boca, às renitentes,
inflá-las, globos, furá-las,
chupar-lhes sangue e medula,
secá-las,
capá-las,
cobri-las, galo, galante,
torcer-lhes o gasnete, cozinheiro,
depená-las, touro,
bois, arrastá-las,
fazer, poeta,
fazer com que engulam todas as suas palavras.