Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poema Negro

Augusto dos Anjos

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
— Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

Meu Interior

Aermo Wolf

Noite fria! Acordei!
Ambiente estranho
Sensação estranha
Estranho prazer

Em meu quarto não me encontrava
Susto!
Sobre uma tumba estava
Sob mim o mármore jazia frio

Quem repousaria ali?
Atenderia se eu chamasse?
Mas o seu nome não sei
Deixo como está

Como fui parar naquele lugar?
A resposta não se demorou
Em minha cama continuava
Apenas minha mente espreitava

Aquele sombrio lugar
Nada mais era que o meu negro interior
Semelhante ao repouso dos mortos
Mas que bem vivos estão!

Psicologia De Um Vencido

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Aos Poetas

Miguel Torga

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

Fantasia

Carolina Salcides

Aqui o sol é mais bonito
Eu posso ser eu
Aqui os sonhos são possíveis
Aqui o amor é infinito.

Me deixa acreditar que é possível
Fazer um mundinho dentro desse mundão
Ter asas e cabelos ao vento
Ir e vir sem julgamento.

Coisa que não existe é coisa que não se sente
Eu vejo com o coração e nele cabe tudo
O que eu sinto é real
Minha imaginação é criadora.

Ela me deixa seguir no cinza, enxergando um arco-íris no chão...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Hodiernus

Maíra DalMaz

Os rios estão distantes
e ainda oscilantes
cambaleamos

sem travessia
sem retórica
sem agrado

nossa maioria
não admirado
e habituado
sem romaria

vida de humano
de dor fulgurante
quão abundante
engano

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Das Dores De Oratórios

Zeca Baleiro

"Porque o amor é como fogo,
 Se rompe a chama
 Não há mais remédio"
 Foi por amar
 Que ela iô iô iô
 Se amasiou com a tal solidão do lugar.
 Foi por amar
 Que ela iô iô iô
 Só pecou nas noites de sonho ao gozar.
 Foi por amar
 Que ela iô iô iô
 Só ficou só
 Ele a deixou
 Só ficará... hum! Foi por amar!
 Foi no altar
 Que ela iô iô iô
 Noiva que um andor podia carregar.
 Foi no altar
 Que ela iô iô iô
 Dor que a própria dor de Das Dores será.
 Foi no altar
 Que ela iô iô iô
 Não virá?
 Não.
 Ele virá...
 Não, não virá... hum! Foi no altar
 Era um lugar
 Era iô iô iô
 Salvador Maria de Antonio e Pilar.
 Era um lugar
 Era iô iô iô
 Seixo que gastou de tanto esperar.
 Louca a gritar
 Ela iô iô iô
 Esquecer, quem há de esquecer
 O sol dessa tarde... hum! Sol a gritar.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Vou Voltar

Dante Ozzetti

Vou voltar pra donde vim
Pra cancela canela alecrim
Primaveras passarins
Luz de velas colméias cupins

Vou voltar pra donde vim
Não tem celas lá tem serafins
Toda casa tem jardim
Com bromélias no pé de jasmim

Vou voltar pra donde vim
Adeus meu velho Itaim
Lá tem mais espaço ar
Pra respirar pra respirar pra respirar

Céu azul tem sol sempre a brilhar
Mutirão duendes fadas festas
Vai além do sossego
Pra namorar pra namorar pra namorar

Tem respeito pelo outro tem
Calma terço tem silencio
Tem paixão também
Pra suspirar pra suspirar pra suspirar

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina

Zeca Baleiro

Meu amor minha flor minha menina
Solidão não cura com aspirina
Tanto que eu queria o teu amor

Vem me trazer calor, fervor, fervura
Me vestir do terno da ternura
Sexo também é bom negócio
O melhor da vida é isso e ócio
Isso e ócio

Minha cara, minha Carolina
A saudade ainda vai bater no teto
Até um canalha precisa de afeto
Dor não cura com penicilina

Meu amor minha flor minha menina
Tanto que eu queria o teu amor
Tanto amor em mim como um quebranto
Tanto amor em mim, em ti nem tanto

Minha cora minha coralina
mais que um goiás de amor carrego
destino de violeiro cego

Há mais solidão no aeroporto
Que num quarto de hotel barato
Antes o atrito que o contrato

Telefone não basta ao desejo
O que mais invejo é o que não vejo
O céu é azul, o mar também

Se bem que o mar as vezes muda,
Não suporto livros de auto-ajuda
Vem me ajudar, me dá seu bem

Meu amor minha flor minha menina
Tanto que eu queria o teu amor
Tanto amor em mim como um quebranto
Tanto amor em mim, em ti nem tanto

terça-feira, 19 de junho de 2012

Canção do Astronauta

Arrigo Barnabé
Reza a lenda que ele deixou o seu planeta,
Natal a muito tempo atrás;
E ainda hoje viaja sozinho pelas estrelas

Há muitas naves pelo espaço,
Todas procuram o astronauta perdido.
Ele viaja sozinho,
Buscando a estrela mítica,
Galadriel!Galadriel!

È o veterano da armagura.
O vagabundo do espaço.
Nem Blade Runner nem Flash Gordon.
Nem Blade Runner nem Flash Gordon.

O astronauta perdido.

sábado, 9 de junho de 2012

Depois

Marisa Monte

Depois de sonhar tantos anos,
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos,
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também

Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também

Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos histórias
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também

Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hey de ser feliz também
Depois

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Aprendiz de Feiticeiro

Itamar Assumpção

Aprendiz de feiticeiro
 Aprendiz de feiticeiro
 Aprendiz de feiticeiro
 Aprendiz de feiticeiro
 Aprendi quando criança que além de tudo
 Balança
 Esse nosso mundo cão
 Aprendi que quem não dança, já dançou na sua infância
 Senão rock foi baião
 Aprendi da importância de não dar muita importância
 Ficar com os meus pés no chão
 Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França
 Mesmo indo de avião
 Aprendi que a desavença é por que sempre
 Alguém pensa
 Que ninguém mais tem razão
 Aprendiz de feiticeiro
 Aprendiz de feiticeiro
 Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
 Tomando champanhe ou não
 Aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença
 São partes da maldição
 Aprendi que a ignorância, a sordidez e a ganância
 São lavas desse vulcão
 Aprendi que essa fumaça a minha janela embaça
 Por fora, por dentro, não
 Aprendi tetra depressa que a taça do mundo é nossa
 E que São Paulo é meu sertão
 Aprendiz de feiticeiro

sábado, 26 de maio de 2012

Meu Guarda-Chuva

Dani Black

Muito prazer,
 eu vim aqui me expressar
 e pra voce
 musica boa eu vou mandar
 Muito prazer,
 eu vim aqui me expressar
 e pra voce
 musica boa eu vou mandar

Mais quando eu comecei a gostar de voce
 voce me abandonou
 e agora chora
 que é bom chorar que eu quero ver
 vai começar a chover
 só eu tenho um guarda-chuva
advinha quem vai se molhar?
 quem vai se molhar é voce
 e tambem pode chorar que eu nao corro atrás
 que no meu guarda-chuva eu nao te levo mais

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mulher

Gabriel Fernando Ribeiro Gripp

Escalando uma
montanha
Com o medo a me
acompanhar
Sigo a risca a
façanha
De ao topo chegar...

Com as pernas
sempre a tremer
Sigo firme e forte
Sem jamais
estremecer!

E chegando ao topo
Vejo a recompensa
De que tudo posso
olhar
Olhar para a imensa
vista
Sem me cansar! ...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É Poesia

Cacildo Silva

Quando a saudade aperta o coração,
Mas te conformas.
Quando ao ficares só te sentes forte,
Sem solidão.
Quando a imaginação te faz planos,
E o faz bem.
Quando sentes o aroma, são, da vida,
É, dela, a flor.
Quando vês que é sincero o que sentes,
É Poesia.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Depois De Tudo Te Amarei

Pablo Neruda

Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos, 
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim 
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.