Poesias Escondidas


Uma pequena demonstração do amor pela nossa língua e nosso idioma, mesmo quando a poesia ou a letra de música for de autoria de um estrangeiro, sendo ou não radicado no Brasil, só serão publicadas as traduções ( caso o idioma não seja a língua portuguesa )...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poesias Por Acaso

Clarice Pacheco

Sem inspiração
estou agora.
Tento atiçar a imaginação
mas ela demora.
Não consigo pensar em algo
que faça rimas.
É como querer acertar o alvo
com a flecha apontada para cima.
Não acho um bom assunto
que se organize bem em versos.
Mesmo sabendo que no mundo
há mil assuntos diversos.
Que coisa chata,
não consigo imaginar.
Isso quase me mata,
porque é horrível não poder pensar.

Mas espere um momento,
 mesmo não tendo um tema,
 se estas frases vou relendo,
 vejo que é um poema!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Areal

Eduardo B. Penteado
I

Um dia, parti de olhos vendados
Para desbravar os desertos...
Pisoteei flores raras em teu oásis de diamante
Mas o mundo é infinitamente finito!
Sempre em frente, em minha marcha
Regressei ao ponto de partida
Foi então que vi os muros.
Encontrei uma porta sólida e impenetrável
Justa e inevitável
Cuja única chave jaz perdida
Sob as areias dos desertos de minha vida
Parto agora numa busca mais objetiva.
Buscarei a chave que abre a tua porta
Tudo que possuo agora é o tempo que me resta
Uma enorme ampulheta
Um oceano de areia
E um fio de luz que escapa por uma fresta.

II

Se fosse definir para ti este momento louco
Acho que começaria por descrever os ecos
Loucos e ocos de lógica
Que reverberam contra mim.
Às vezes sinto-me como uma caverna secreta
Um poço de sons
Uma mera estrutura de ossos, sangue e olhos
Com todo o resto a ser preenchido
Por uma expectativa de um algo mais
De um grito...
De uma louca corrida por areias úmidas
De escuridão.
De um passo em falso
Na direção de um lindo abismo
Que foge à compreensão das outras pessoas
Pois dirige sua queda para cima
Rumo a um parafuso incontrolável de descobertas
E déjà-vu
Girando, girando
Mãos, olhos, bocas, vidas, tempos...
De tempos em tempos
O ponteiro dos segundos se mexe
Um brilho de diamante me ofusca
E eu alucino.
De tempos em tempos
A porta deixa escapar um fio de luz
Instantâneo, porém intenso
Tímido, lindo e tenso
Apenas um pequenino e tímido fio de luz
Que ilumina a periferia dos desertos.

III

Tenho areia nos olhos e água pura nas mãos
Sinto uma lágrima seca no rosto
Coagulando
E em meio a uma tempestade de areia
Vejo alguém a girar,
Girando no falso redemoinho da ampulheta.
Vi meu sangue na areia
Dei as costas para a porta.
Tenho areia nos olhos e uma cascata nas mãos
Por onde escapas de mim
Grão, grão, grão após grão
Girando mãos
Girando olhos
Girando uma tranca que, simplesmente... não.
''Um olho na fechadura,'' repete o eco
Mas tem de ser diferente!
Tende a ser referente:
O arame farpado que me isola de ti
Também cerca o meu horizonte
Não vejo campos, não vejo montes
Abre então a porta do teu desejo.

IV

A lua surgiu
E cobriu meus desertos.
Aqui e ali emergem espectros
Que fitam o sangue em minhas veias
E voltam a desaparecer nas areias.
Fechei os olhos,
E dentro de minha própria escuridão,
Adormeci.
Sonhei que a areia me cobria, e gritei!
Quis esmurrar a porta, como que possuído
Mas ela se transformou em fino cristal
Frágil demais para ser destruído.
Desaprendi o limite entre o sonho e o real
E brindei à dor do não concluído.
À minha volta, a paisagem se modifica
Os espectros me chamam para outra dimensão
E do outro lado da porta de cristal
Alguém sussurra o meu nome... em vão.
Em vão!

V

Um dia, parti de olhos vendados...
Estou fora dos desertos
As areias se transformaram em pó e cinzas
Junto com os princípios básicos da paixão
Repenso estroboscopicamente aquilo que vivi
Areia, ampulheta, abismos, gritos, gritos!
Um adeus às armas
Um impossível adeus às lágrimas
Um improvável adeus aos lugares-comuns.
Ora, boa noite!
Que surpresa vê-la aqui...
Para onde ir e de onde vir?
Inocência, deixe-me rir
Inocência, leve-me para longe dos desertos
Vastos e úmidos desertos
Cobertos por uma fina película de sangue
Sangue na areia
Uma rosa branca na areia
Ela está morta, e jamais gostou de rosas
Estou livre...
O céu se partiu, e está chovendo vidro.

Senhor Dos Versos

Mário Feijó
Era tão belo aquele menino
Alma de criança travessa
Que pulava sobre pedras
Transformando-as em versos...

Em meus sonhos por vezes
Ele se torna um deus grego
E com sua cítara sai por aí a fazer versos
Ao mesmo tempo em que flecha corações...

Não queria acreditar em seu poder, o menino,
Tampouco sabia ele que produzia pérolas
Encantando a todos – alguns dos simples mortais
Transforma ele em estátuas de mármore...

Quisera eu poder transformar o encanto
Correr pelas ruas em pranto e perdoá-lo
Foi-se embora o menino... fez-se homem
E levou todos os meus versos...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Felicidade É Coisa Que Não Tem

Judas Isgorogota

Era órfã e infeliz. Tinha o pesar profundo
De ser só, de não ter, como as outras meninas,
O carinho, a atenção, o desvelo dos pais.
Sofria por saber que, sozinha no mundo,
Ela, que havia tido a mais negra das sinas,
Deste mundo de dor nada esperava mais...
Mas, ouvindo, por fim, a fervorosa prece
Que altas horas da noite entre prantos brotava
Daquele ingênuo coração,
O Senhor a atendeu. E eis que um dia aparece
Um casal que de há muito desejava
Uma menina assim, para sua afeição.
E ela foi a sorrir, ela que não sorria...
A mansão do casal era toda cercada
De um mimoso jardim.
Seus vestidos agora eram lindos. Dir-se-ia
Que a andrajosa infeliz se transmudara em fada
E que a sua desdita, enfim, tivera um fim...
Não tivera, porém. Há três anos
Que ela era na escola a estudante pior.
Entanto, ela fazia esforços sobre-humanos
Para ao menos dizer uma frase de cor...
A memória, porém, só lhe causava danos
E era aquilo, afinal, sua mágoa maior...
Uma noite, o casal lhe disse: "Temos pena
De lembrar que você já não é tão pequena,
Que precisa estudar...
Pois, se perder este ano, é coisa resolvida,
Você vai passar a sua vida
Na copa, a trabalhar."
Aquela repreensão como um punhal lhe doía.
Tendo a alma a afogar-se em pranto, noite e dia
Aos livros a sem-sorte inda mais se aplicou.
Não, não queria ser uma simples copeira,
Ela que, pobrezinha, a sua infância inteira
Entre angústias passou...
Dezembro. A criançada. Antegozando as férias,
Mui longe de pensar nessas coisas tão sérias
Que a vida nos impõe quando a idade já vem,
Corre aos exames, rindo a criançada...
E no meio daquela revoada
Com um riso triste e bom, a órfão sorri também...
A escola é nesse dia um ninho delicioso,
Forrado de jasmins, de palmas e florões.
E a voz do mestre é a voz de um Todo-poderoso
Que as almas infantis enche de comoções...
Chega a vez da orfãzinha. É agora a vez terceira
Que se senta naquela humílima cadeira
Tal como se sentasse em um banco de réu...
Fala o mestre o seu nome, ao que ela diz: "Presente!"
Mas, o corpo era só que estava ali...realmente,
A sua alma vagava, entre os anjos, no céu...
O mestre a conhecia: era uma retardada
Mental, um caso à parte, e mister se fazia
Que com amor procedesse à mais leve argüição.
Dentre todas talvez fosse a mais aplicada...
Mas a idéia faltava...o cérebro dormia...
E a memória vivia em profunda inação.
-"Minha filha, você sabe perfeitamente
O que é "substantivo": a palavra que indica
Um animal, um ente,
Uma coisa ou pessoa, ou mesmo uma ilusão...
Por exemplo, você, o seu nome, "Lilica";
"Palácio", "Deus", "Amor", "Jornal", "Antônio"...
"Demônio" é um ser também, muito embora "Demônio"
Somente exista na imaginação..."
-"Muito bem, - prosseguiu o mestre. Estou contente.
Agora, diga o que é "substantivo abstrato"...
Diga...Lembre-se bem...coisa mais fácil não há...
Substantivo abstrato...uma coisa em que a gente
Ouve sempre falar mas não viu, de fato,
Nunca viu nem verá..."
-"Vamos... Só um exemplo, e eu fico satisfeito...
Substantivo abstrato...um entre sobre-humano,
Um ser a cujo canto alma alguma resiste,
Mas que não passa de ilusão...
Um sentimento bom que vive em nosso peito...
Uma coisa que o mundo inteiro diz que existe
E entretanto jamais a tivemos à mão..."
Nesse instante, uma luz brilhou nos olhos pequeninos
Da orfãzinha infeliz; e eis que, rasgando o denso
Nevoeiro, a idéia acorda em lampejos divinos,
A memória reluz como uma estranha vela;
Inicia a razão sua marcha triunfal,
E o cérebro, por fim, despertando daquela
Sonolência fatal,
Começa a funcionar com um dínamo imenso!
-"Mestre...mestre...eu já sei!" – grita a coitada como
Temendo que a razão se apagasse outra vez.
E aos brados, a chorar, num doloroso assomo,
Grita como uma douda
Que quisesse dizer a sua angústia toda
Naquele instante só de estranha lucidez!
- "Mestre, eu sei o que é! Se há uma coisa, em verdade,
Que o mundo inteiro diz que existe e que ninguém
Conseguiu ver jamais, nem a sentiu também,
Essa coisa só pode ser "Felicidade"!
Felicidade é coisa que não tem"!
(As Amáveis Lembranças)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Aforismos dos Quinhentos Anos

Paulinho Assunção

O Brasil é um barco mitológico com quinhentos anos,
tripulado por gente com asas.
Gente com asas grandes, médias, pequenas – e gente com asas cortadas.
 
Querem uma teoria sobre o Brasil?
Pois aprendam a arte de observar os pés da multidão:
cada sapato é uma premissa,
cada pé descalço é uma questão.
 
E então?
Que abismo nos espera depois que a grande farra do capital terminar
numa gigantesca ressaca?

É função do poeta brasileiro de quinhentos anos despoetizar a poesia até o osso.
Toda a poesia poetizada está hoje na boca mole retórica da política,
incluindo aí a política dos poetas molemente poetizados.
 
Equivocaram-se os adeptos do “pós” isto, do “pós” aquilo.
Aos quinhentos anos,
estamos e somos pré, pré-qualquer-coisa.
 
Uma teoria sobre o Brasil?
Pois: traçar uma linha evolutiva entre as miçangas
e os espelhinhos dos conquistadores
e os celulares dependurados pelo corpo dos brasileiros.
 
Esta paisagem nas esquinas, sob os viadutos,
paisagem de meninos e meninas, de homens e mulheres,
amontoados, dormindo: o tal paraíso da carta de Caminha
trazia um texto oculto, profético e trágico,
para ser lido só agora, quinhentos anos depois.
 
Ao meu filho de dois anos, eu digo, sempre direi:
jamais dê importância a quem pensa
e escreve com mandíbulas de ferro.
 
Ao meu filho de dois anos, eu digo, sempre direi:
desconfie da ira do manso e da mansidão do irado.
 
Quinhentos anos: ex-brasileiro, ex-estrangeiro,
que homem me vejo dentro do espelho?
 
Querem outra teoria sobre o Brasil?
Pois aprendam a arte de ver estes e aqueles,
por aí, em algum lugar, os que perderam o trem,
mas continuam sentados à espera do embarque na estação em ruínas.
 
Ou então,  aprendam a arte de ver estes e aqueles,
por aí, em algum lugar,
os que se calaram depois do último combate,
os que depuseram as armas e jogaram no lixo
medalhas e condecorações.
 
Ou então,
uma teoria sobre o Brasil quinhentão poderia se assentar nesta imagem:
o trajeto-arco de uma nova idéia,
desde a sua eclosão até ser abatida
a tiros em praça pública.
 
Quinhentos anos e não aprendemos isto:
é o modo de fazer o guisado, não o guisado;
é o ponto do doce, não a bandeja com o doce;
é o modo de temperar, não o tempero;
é o modo do beijo, não a boca nem o beijo;
é o modo de viver, é o modo de morrer.
 
Há quinhentos anos, um barco tripulado pelas gentes tupiniquins
aportaria em uma costa qualquer da Europa
para mostrar ao europeu uma questão filosófica de base.
Esta: o trovão é o trovão é o trovão.
 
Quinhentos anos de História,
nenhum problema resolvido,
sequer colocado.
 
Quinhentos anos:
os sabichões tardios, com as suas estéticas agônicas,
ainda reinventarão a bicicleta, o bilboquê, a bolinha de gude.
 
Quinhentos anos:
os capitães-do-mato agora agem nas periferias metropolitanas.
Trocaram o bacamarte pelo fuzil.
 
Quinhentos anos:
uns milhões de escravos egípcios,
sob o chicote do faraó,
tentam empurrar a pirâmide-Brasil para o Primeiro Mundo.
 
Verdade das vaidades:
o tal paraíso da carta de Caminha
existe de fato nos sorrisos das colunas sociais.
 
Mas esse céu, esse sol, essas praias,
essas mulheres, esse carnaval, esse futebol,
esses automóveis, essa languidez – meu Deus,
quem é que se ocupará da utopia?
 
Pergunta dos quinhentos anos: ainda seremos anglo-saxônicos?
 
Fim de milênio e de cantar:
a poesia, meninos,
se ainda há a poesia, é o idioma posto a pensar.
 
Balanço pessoal dos quinhentos anos
 sou especialista em nuvens,
especialista em entardeceres e amanheceres.
Especializei-me naquilo que é refugo,
naquilo que é insignificante para a ordem do mundo,
para a dita riqueza do mundo.
 
Conclusão dos quinhentos anos:
o Apocalipse, meninos, o Apocalipse aconteceu várias vezes
e ainda existe muita pólvora estocada.
 
E foram dizer que eras grande, impávido, colosso:
agora só nos resta suportar o teu narcisismo incomensurável.
 
Com tamanha quantidade de automóveis-falantes,
de automóveis-pensantes, de automóveis-emergentes,
quem é que vai se ocupar do pé andarilho?
 
Dúvida dos quinhentos anos:
e se começássemos tudo de novo,
com um baile ou quem sabe uma quermesse?

sexta-feira, 30 de março de 2012

Deus-Já-Vi

Eduardo B. Penteado

Foi numa praia em preto-e-branco
Numa noite expressionista
Sim, eu quase me lembro bem
Foi na época do meu primeiro monólogo com
deus(?)
Eu gritava e ele não respondia
Apenas me olhava
E eu andava calçado na água salgada
Um grito me acordou
E vi-me num sonho redondo e simétrico
"Socorro," gritou o que fui
De leve esbarrando no que sou
Torci para não ser reconhecido
Mas na multidão de eus,
Fui eu o escolhido
Cortei-me fundo, procurando uma veia
Mas só achei um veio de mercúrio
E eu estava longe, muito longe
Longe demais para gritar:
Morte, riso, planta, mulher
deus seja aquilo que eu o quiser!

http://eduardopenteado.blogspot.com.br/

quarta-feira, 28 de março de 2012

Evangelho

Carlos Vogt

A diferença entre o Deus de justiça do Velho Testamento
e o de misericórdia do Novo
é o caso que teve com Nossa Senhora
e o humanizou

Desalinhamentos

Anita Costa

Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou ausência
tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar – o carro não obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos
já me acostumei, mesmo sem rádio ou toca-fitas
já me acostumei
a ensaiar um enfarte no meio da avenida
a temer um desmaio em horas impróprias
me acostumei com o sal ao redor dos lábios salvando a pressão
que costuma baixar no calor
me acostumei mesmo com o carro a cena os desastres
rompendo o concreto pela manhã
mas mesmo assim não suporto
não suporto a visão dos acidentes que se distribuem
nem mesmo o acúmulo de justificativas
desculpas
por mais um atraso
mais uma ausência uma falta
enquanto um cão se debate no asfalto
e algumas pessoas se reúnem para assistir

Annita Costa nasceu em 1975 em São Paulo, é jornalista e mestre em Comunicação e
Semiótica pela PUC-SP. Publicou : "fundos para dias de chuva" pela Ed.7letras.
annita.costa@terra.com.br

terça-feira, 27 de março de 2012

O Bordado Cruel

Alexei Bueno

Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta. 
E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam. 
Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,

E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.

Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo
Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas... 
Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,

E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.
E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente, 
Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido, 
E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.

Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,
E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores
E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,
Todo o amargor das profecias mortas!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Soneto Da Arminda

Álvares de Azevedo

Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um coração que dorme, inda inocente.

Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura,
A linda mão na mágica cintura,
E uma voz que inebria docemente.

Um sorriso tão angélico! tão santo
E nos olhos azuis cheios de vida
Lânguido véu de involuntário pranto!

É esse o talismã, é essa a Armida,
O condão de meus últimos encantos,
A visão de minh’alma distraída!

Verdadeiro Amor

José Bezerra

Verdadeiro amor que se tem na vida
Só existe um é o da nossa mãe querida
Mãe é o grande tesouro cheio de sublimação
O segundo nazareno na historia do perdão

Se o seu filho for na vida um homem de projeção
Sua mãe sente o orgulho deste grande cidadão
E se for um transviado que não tem reputação
Sua mãe lhe abraça e beija com o mesmo coração

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Nossa Canção

Luiz Ayrão

Olha aqui
Preste atenção
Essa é a nossa canção
Vou cantá-la seja aonde for
Para nunca esquecer do nosso amor
Nosso amor...
Veja bem, foi você
a razão e o porquê
De nascer essa canção assim
pois você é o amor que existe em mim.

Você partiu
E me deixou
Nunca mais você voltou
Pra me tirar da solidão
E até você voltar
Meu bem eu vou cantar
Essa nossa canção.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Retalhos de Cetim

Benito di Paula

Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.

E ela jurou desfilar pra mim,
Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.

Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha, que eu tanto amei.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os Homens Ocos

"A penny for the Old Guy"
(Um centavo para o Velho Guy)

T S ELiot

  I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

  II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

  III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

  IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

  V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
                       A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

Tradução : Ivan Juqueira

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Seguindo Estrelas

Herbert Vianna

Sigo palavras e busco estrelas
O que é que o mundo fez
Pra você rir assim
Pra não tocá-la, melhor nem vê-la
Como é que você pôde se perder de mim
Faz tanto frio, faz tanto tempo
Que no meu mundo algo se perdeu
Te mando beijos
Em outdoors pela avenida
E você sempre tão distraída
Passa e não vê, e não vê.

Fico acordado noites inteiras
Os dias parecem não ter mais fim
E a esfinge da espera
Olhos de pedra sem pena de mim
Faz tanto frio, faz tanto tempo
Que no meu mundo algo se perdeu
Te mando beijos
Em outdoors pela avenida
Você sempre tão distraída
Passa e não vê, e não vê.

Já não consigo não pensar em você
Já não consigo não pensar em você

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Canção Para Uma Valsa Lenta

Mário Quintana

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!