Poesias Escondidas
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Annabel Lee
Tradução: Fernando Pessoa
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
O Corvo
Tradução: Fernando Pessoa
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais
-Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais
-Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
"Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais".
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
O Amor, Quando Se Revela
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
segunda-feira, 30 de março de 2009
Presença De Você
Toque...
com seus lábios a minha boca,
com suas mãos a minha pele,
com seu ser o meu querer.
Roube...
da minha boca beijos quentes,
da minha pele o desejo ardente,
do meu querer o entregar.
Cubra...
minha boca de delícias,
minha pele de malícias,
meu querer só de pecados.
Traga...
nos seus lábios o veneno,
nas suas mãos o obsceno,
no seu ser o meu prazer.
Pois preciso...
do meu coração acelerado,
do meu corpo embriagado
da presença de você.
Você Chegou
Sua presença tem sido marcante
em minha vida ultimamente,
tem me deixado mais confiante,
feito-me crescer realmente.
Meu pequeno mundo era triste
até você cruzar meu caminho,
porque tristeza nenhuma resiste
a tanta demonstração de carinho.
Com as tristes marcas da vida,
eu quase não conseguia caminhar,
sentia-me tão pouco querida,
até deixei de sonhar.
Mas um sopro inexplicável do destino,
colocou-me em suas mãos
e o que me parecia desatino
devolveu meu coração.
Percebi a minh'alma brilhar
e no amor voltar a crer...
Senti meu coração sarar,
de novo começar a bater.
Suas palavras vieram carinhosas,
no meu coração alojarem.
Senti-as como pétalas de rosas,
sobre mim, despencarem.
Fez-me sentir uma princesa,
quando de mimos me cobrindo
deu-me esta certeza:
você não estava mentindo.
Em minha vida, assim você entrou,
trazendo consigo a felicidade.
Meu coração finalmente encontrou,
quem me ama de verdade.
Eu Ando Assim, Meu Amor
O desejo aumentando...
Suspiros e devaneios,
Arfante roçar de seios,
Meu corpo está te chamando...
Percebo, dia após dia,
Que me desejas também.
E, enquanto não chega a hora,
Eu sonho, tal como agora,
Que desta vez você vem.
Que gosto terá teu beijo?
Um sabor de ambrosia
É o que estou imaginando,
Mas só saberei sugando
A tua boca macia...
Que aroma terá teu corpo?
Perfume de sedução...
Quero cheirá-lo inteirinho,
Saboreá-lo todinho,
Explodindo de paixão...
Nesta espera alucinada
Por tão ansiada festa,
Prazeres que tanto quero,
Em meu desejo sincero,
Aguardar é o que me resta.
Quero entregar-me inteira,
Com total insensatez,
Deixar-te me devorar,
E alucinadamente gozar
A nossa primeira vez...
quarta-feira, 25 de março de 2009
Fogo
Amor, estou morrendo de saudades tuas
Veja como fico quando paro para pensar em você
Minha temperatura sobe,
a saudade dói em meu peito
Não sei o que tem em você que me deixa assim
tão doida
Talvez seja o modo como me trata,
Me maltrata quando quero,
me ama quando preciso
Ou talvez seja esta paixão que me incendeia
o corpo todo
Ai amor, não sei,
são tantas coisas que me liga a você
Este ciúme que não me deixe um instante sequer
O medo que tenho de perde-lo
Vem amor, vem esfriar este corpinho em brasa
Vem me deixar cansadinha
e tirar este tesão que me atina
Não quero mais nada
a não ser o toque de tuas mãos
em meu corpo
Quero me deliciar de teu prazer,
derreter ao contato de teu corpo
Vem meu homem,
mais uma vez explorar sua pequena
Use e lambuze deste meu corpinho
que somente a ti pertence
Mata esta saudade que tenho de você
Acalme minhas taras e me deixe quatro.
Vem meu menino vadio,
sussurra lindas palavras só para mim
E depois me deixe adormecer em teus braços
para nunca mais acordar deste sonho lindo...
quarta-feira, 18 de março de 2009
Coração De Mulher
Coração de uma mulher
Guarda segredos mil
Nem ela consegue desvendar
Qual é o seu ardil
Por mais que intenta...
Querendo se entender
Coração com seus mistérios
Faz do amor seu ministério
Mas ama de modo errado
Como borboleta de flor em flor
Não se importando se é amado
Se irá causar ou sentir dor
Vive de muitos conflitos
Ama e deixa de amar
Na alma ecoa seus gritos
Acaba por a si mesmo magoar
Sem de a vida usufruir
Assim segue, vai vivendo.
Não consegue se definir
Sozinho, aos poucos vai morrendo.
Antes De Ti
Antes de ti -
Escrever era pragmático.
Dois versos superpostos
um aqui, outro ali.
Tudo simples, estático
sarcático.
Naquele tempo, sem você...
palavras eram peças calculadas
cuidadosamente estudadas,
jogo fugaz para entretecê.
Hoje muda, calada
no tinteiro a pena descansada
de saudade a boca amordaçada,
continuo como ontem...
Sem você!
Não Te Quero
Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,como um cego.
Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Copacabana
Existem praias
Tão lindas
Cheias de luz
Nennuma tem o encanto
Que tu possuisTuas areias
Teu céu tão lindo
Tuas sereias
Sempre sorrindo
Copacabana
Princesinha do mar
Pelas manhãs
Tu és a vida a cantar
E à tardinha
Ao sol poente
Deixas sempre
Uma saudade na gente
Copacabana
O mar eterno cantor
Ao te beijar
Ficou perdido de amor
E hoje vive a murmurar
Só a ti Copacabana
Eu hei de amar
Amor & Medo
Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.
É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Doce Recordação
Dedilho algo no piano e meu pensamento volita
em algum lugar que já estive no meu passado.
Fecho os olhos com saudade e , então penso,
o ontem em relação ao hoje... está tão distante.
Ontem , eu tinha uma menina tão linda , brejeira,
de cabelos lourinhos e olhos azuís, encantadores,
que brincava comigo pela casa...parece que ouço
seus gritinhos contagiantes - "NÃO PARE, MAMÃE"
Hoje, que passou tão rápido em relação ao ontem,
me encontro, no momento, tão só na recordação
e muito envolvida nesse pensamento engraçado.
O tempo galopou com seu alazão e me tornou vovó .
Obra Inacabada
Sempre entendi teu olhar
fascinante que me enviava
mensagens não codificadas,
pois nunca foi segredo
o que sentias por mim.
E, eu tão prontamente
com mãos de artista,
esculpi muitas vezes
o teu corpo sem o cinzel.
A obra?
A obra ficou inacabada...
volta, ainda dá tempo...
para terminar !
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Emotividade Da Cor
A Dolores Marques Caplonch e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Estâncias Para Música
Lord Byron
Alegria não há que o mundo dê, como a que tira.
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura
Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce;
Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,
Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto.